A reforma tributária sobre o consumo poderá comprometer o capital de giro das empresas por até 63 dias devido a atrasos no aproveitamento de créditos da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). O risco foi apontado em levantamento da Roit, empresa especializada em infraestrutura tributária, divulgado em 26 de outubro, que identificou possíveis diferenças de prazo entre fornecedores e compradores e situações de inadimplência comercial.
Segundo o estudo, descompassos nos ciclos de faturamento podem atrasar em 33 dias o aproveitamento dos créditos tributários. Quando o fornecedor deixa de recolher o tributo, o prazo pode chegar a 63 dias. A análise considerou 65 grupos empresariais e 295 mil fornecedores, com um volume anual de compras de R$ 608,8 bilhões.
Crédito tributário dependerá do recolhimento do imposto
A mudança está relacionada às regras de aproveitamento de créditos previstas na reforma tributária. No novo modelo, o comprador poderá apropriar créditos de CBS e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) conforme as condições legais de extinção do débito tributário da operação anterior, entre elas o pagamento do imposto.
A alteração muda a dinâmica financeira das empresas, pois a utilização do crédito poderá depender do momento em que o fornecedor recolher o tributo. Assim, mesmo depois de realizar uma compra, a empresa adquirente poderá ter de esperar para aproveitar o crédito correspondente, conforme as circunstâncias da operação.
O impacto pode ser maior em cadeias de fornecimento com prazos de pagamento e faturamento diferentes. Se o comprador precisar quitar suas obrigações comerciais antes de conseguir utilizar o crédito tributário, poderá haver uma pressão adicional sobre o caixa, especialmente em negócios que operam com margens reduzidas ou dependem de capital de giro para manter as atividades.
Estudo aponta R$ 16,35 bilhões em tributos potencialmente sem crédito
O levantamento da Roit também identificou um volume potencial de R$ 16,35 bilhões por ano em tributos pagos nas etapas anteriores da cadeia que não poderiam ser recuperados como crédito nas situações analisadas. De acordo com a empresa, esses valores podem acabar incorporados ao custo dos insumos e refletir no preço final dos produtos e serviços.
O número representa uma estimativa do estudo, e não uma perda confirmada para todas as empresas brasileiras. O efeito financeiro dependerá das características das operações, dos prazos praticados entre os parceiros comerciais e do cumprimento das regras de recolhimento e apropriação dos créditos.
Empresas precisam revisar contratos e sistemas
Diante dos possíveis impactos, a Roit recomenda que as empresas revisem contratos comerciais, políticas de compras e prazos de pagamento, além de preparar seus sistemas de gestão para as novas regras.
A adaptação envolve também a integração das áreas fiscal, financeira, jurídica e comercial. O objetivo é acompanhar o recolhimento dos tributos pelos fornecedores, identificar riscos de atraso no aproveitamento de créditos e avaliar como os novos prazos podem afetar a disponibilidade de recursos.
O levantamento destaca 31 de dezembro de 2026 como prazo para as empresas ajustarem sistemas de gestão empresarial, renegociarem condições contratuais e organizarem os procedimentos internos antes do início da nova etapa da reforma.
A CBS começa a integrar a transição tributária em 2027, enquanto a implementação do IBS também seguirá o cronograma previsto na legislação. Por isso, o planejamento financeiro e tributário será importante para que as empresas avaliem os efeitos das mudanças sobre o fluxo de caixa e evitem que atrasos no aproveitamento de créditos comprometam suas operações.
Com informações da Folha de S. Paulo